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domingo, 27 de março de 2011

Como a Internet está mudando a amizade

http://super.abril.com.br/cotidiano/como-internet-esta-mudando-amizade-619645.shtml

 

Nunca foi tão fácil manter contato e conhecer gente nova pela internet. Graças às redes sociais, nunca tivemos tantos amigos. Mas isso está transformando a própria definição de amizade.

por Camilla Costa
Qual é a primeira coisa que você faz quando entra na internet? Checa seu e-mail, dá uma olhadinha no Twitter, confere as atualizações dos seus contatos no Orkut ou no Facebook? Há diversos estudos comprovando que interagir com outras pessoas, principalmente com amigos, é o que mais fazemos na internet. Só o Facebook já tem mais de 500 milhões de usuários, que juntos passam 700 bilhões de minutos por mês conectados ao site - que chegou a superar o Google em número de acessos diários. A internet é a ferramenta mais poderosa já inventada no que diz respeito à amizade. E está transformando nossas relações: tornou muito mais fácil manter contato com os amigos e conhecer gente nova. Mas será que as amizades online não fazem com que as pessoas acabem se isolando e tenham menos amigos offline, "de verdade"? Essa tese, geralmente citada nos debates sobre o assunto, foi criada em 1995 pelo sociólogo americano Robert Putnam. E provavelmente está errada. Uma pesquisa feita pela Universidade de Toronto constatou que a internet faz você ter mais amigos - dentro e fora da rede. Durante a década passada, período de surgimento e ascensão dos sites de rede social, o número médio de amizades das pessoas cresceu. E os chamados heavy users, que passam mais tempo na internet, foram os que ganharam mais amigos no mundo real - 38% mais. Já quem não usava a internet ampliou suas amizades em apenas 4,6%.

Então as pessoas começam a se adicionar no Facebook e no final todo mundo vira amigo? Não é bem assim. A internet raramente cria amizades do zero - na maior parte dos casos, ela funciona como potencializadora de relações que já haviam se insinuado na vida real. Um estudo feito pela Universidade de Michigan constatou que o 20 maior uso do Facebook, depois de interagir com amigos, é olhar os perfis de pessoas de gente que acabamos de conhecer. Se você gostar do perfil, adiciona aquela pessoa, e está formado um vínculo. As redes sociais têm o poder de transformar os chamados elos latentes (pessoas que frequentam o mesmo ambiente social que você, mas não são suas amigas) em elos fracos - uma forma superficial de amizade. Pois é. Por mais que existam exceções a qualquer regra, todos os estudos apontam que amizades geradas com a ajuda da internet são mais fracas, sim, do que aquelas que nascem e crescem fora dela.

Isso não é inteiramente ruim. Os seus amigos do peito geralmente são parecidos com você: pertencem ao mesmo mundo e gostam das mesmas coisas. Os elos fracos não. Eles transitam por grupos diferentes do seu, e por isso podem lhe apresentar coisas e pessoas novas e ampliar seus horizontes - gerando uma renovação de ideias que faz bem a todos os relacionamentos, inclusive às amizades antigas. Os sites sociais como Orkut e Facebook tornam mais fácil fazer, manter e gerenciar amigos. Mas também influem no desenvolvimento das relações - pois as possibilidades de interagir com outras pessoas são limitadas pelas ferramentas que os sites oferecem. "Você entra nas redes sociais e faz o que elas querem que você faça: escrever uma mensagem, mandar um link, cutucar", diz o físico e especialista em redes Augusto de Franco, que já escreveu mais de 20 livros sobre o tema. O problema, por assim dizer, é que a maioria das redes na internet é simétrica: se você quiser ter acesso às informações de uma pessoa ou mesmo falar reservadamente com ela, é obrigado a pedir a amizade dela, que tem de aceitar. Como é meio grosseiro dizer "não" a alguém que você conhece, mesmo que só de vista, todo mundo acabava adicionando todo mundo. E isso vai levando à banalização do conceito de amizade. "As pessoas a quem você está conectado não são necessariamente suas amigas de verdade", diz o sociólogo Nicholas Christakis, da Universidade Harvard. É verdade. Mas, com a chegada de sites como o Twitter, a coisa ficou diferente.

Amizade assimétrica


No Twitter, eu posso te seguir sem que você tenha de autorizar isso, ou me seguir de volta. É uma rede social completamente assimétrica. E isso faz com que as redes de "seguidores" e "seguidos" de alguém possam se comunicar de maneira muito mais fluida. Ao estudar, com um time de pesquisadores, a sua própria rede no Twitter, Christakis percebeu que seu grupo de amigos tinha começado a se comunicar entre si independentemente da mediação dele. Pessoas cujo único ponto em comum era o próprio Christakis acabaram ficando amigas entre si. "As redes sociais estão ficando maiores e mais diversificadas", diz o sociólogo e pesquisador de redes Barry Wellman, da Universidade de Toronto.

É o seguinte. Eu posso me interessar pelo que você tem a dizer e começar a te seguir. Nós não nos conhecemos. Mas você saberá quando eu o retuitar ou mencionar seu nome no site, e poderá falar comigo. Meus seguidores também podem se interessar pelos seus tuítes e começar a seguir você. Os seus seguidores podem ter curiosidade sobre mim e entrar na conversa que estamos tendo. Em suma: nós continuaremos não nos conhecendo, mas as pessoas que estão à nossa volta estabelecem vários níveis de interação - e podem até mesmo virar amigas entre si.

Mas boa parte dos cientistas ainda acha que, mesmo estando em contato com qualquer pessoa mais facilmente e a todo o momento, a distância conti-nuará prejudicando as amizades. "A internet faz com que você consiga desacelerar o processo, mas não salva as relações", acredita o antropólogo Robin Dunbar. "No fim das contas, ainda precisamos estar próximos das pessoas de vez em quando." É verdade. A maioria dos especialistas em relacionamento humano
acredita que a proximidade física é essencial para sentirmos os efeitos benéficos das amizades profundas. Só que o cérebro pode estar começando a mudar de opinião.

Um estudo que está sendo realizado na Universidade da Califórnia começou a desvendar o efeito que as redes sociais produzem no organismo. Mais precisamente, o que acontece com os níveis de ocitocina quando usamos o Twitter, por exemplo. É há um efeito. Os primeiros resultados mostraram que tuitar estimula a liberação desse hormônio, e consequentemente diminui os níveis de hormônios como cortisol e ACTH, associados ao estresse.

Isso significa que o cérebro pode ter desenvolvido uma nova maneira de interpretar as conversas no Twitter. "O cérebro entende a conexão eletrônica como se fosse um contato presencial", diz Paul Zak. Isso seria uma adaptação evolutiva ao uso da internet. "O sistema de ocitocina está sempre se ajustando ao ambiente em você está", diz. "Pode ser que, de tanto interagir em redes sociais, as pessoas estejam se tornando mais sintonizadas para a amizade. E aí elas acabam fazendo mais amigos, inclusive presencialmente." Ou seja: além de mudar as amizades, a internet também pode acabar modificando o próprio cérebro humano. Mas ainda é cedo para dizer se acabaremos nos tornando seres hiperssociais, com cérebros capazes de acomodar um número maior de amigos. O próprio Paul Zak diz que não é possível desconsiderar a importância do contato físico - um dos mais importantes estimulantes da liberação de ocitocina no organismo. "No máximo, vamos ter mais possibilidades de manter relações íntimas a distância por mais tempo", diz. Outros, como Robin Dunbar, acham que a tecnologia ainda pode nos surpreender, e romper a última barreira da amizade online: "O Skype e outros serviços do tipo não são bons o suficiente, porque não nos permitem tocar um no outro em realidade virtual. Ainda."

AMIZADE POS-MODERNA
A internet e as redes sociais se baseiam em dois tipos de relação:

Amizade simétrica
É recíproca: se eu quiser ter você como amigo e acessar o seu perfil, você precisa autorizar o pedido e se tornar meu amigo também.
Pró: Privacidade. Você decide quem terá acesso às suas informações.
Contra: Reduz a possibilidade de conhecer gente nova.
Exemplos: Facebook / Orkut / Flickr / Linkedin / MSN / Last.fm

Amizade assimétrica

Não é recíproca: eu posso adicionar ou seguir você sem precisar pedir permissão (e posso inclusive fazer isso sem que você saiba).
Pró: Torna muito mais fácil a formação de laços e comunidades.
Contra: Mais difícil de virar amizade íntima, pois a interação é pública.
Exemplos: Twitter / Buzz / Tumblr / Blip.fm

sábado, 8 de janeiro de 2011

Mercado do tempo

Tempo não é dinheiro: bem ou mal investido, ele sempre vai acabar. Aprenda a lidar com este bem perecível, intransferível e precioso. Para controlá-lo, é preciso entendê-lo

por Emiliano Urbim





 
Natal já tá aí. O ano passou voando. É a vida, cada vez mais corrida. Vinte e quatro horas é pouco - precisava um dia maior para pôr tudo em dia.

Contra esses lugares-comuns, boa parte dos manuais prescreve doses regulares de priorização, planejamento, multitasking, lembretes, listas e agendas, analógicas e digitais. Mas a ciência tem uma receita diferente: você não vai aprender a controlar seu tempo encarando um calendário. Antes, é necessário olhar para outros lugares.

Sua compra do mercado, por exemplo: é para resolver uma refeição ou o resto da semana? Tem aqueles orgânicos que você prometeu consumir? Aliás, você trouxe uma lista? É no dia a dia que se revela nossa habilidade de cumprir planos.

Não é algo que você nasce sabendo. A forma como você gasta e às vezes ganha tempo é influenciada por fatores culturais, geográficos e econômicos. Tudo isso resulta na sua orientação temporal, uma fórmula pessoal de encarar passado, presente e futuro. Mas uma coisa vale para todos nós: o tempo passa. Melhor aprender a lidar com ele e acompanhar seu ritmo, antes que ele acabe ultrapassando você.

Natural x artificial

Um segundo não é a 60ª parte de 1 minuto. Desde 1967 ele foi redefinido pelo Sistema Internacional de Unidades como "a duração de 9 192 631 770 ciclos de radiação de uma transição eletrônica no átomo de césio-133". Em 1997, um adendo: "a -273,15 °C". Usar um átomo para medir o tempo sugere que segundos, minutos e horas estavam aí, esperando ser descobertos. Mas o tempo do relógio é tão artificial quanto recente - ainda estamos nos adaptando a ele.

Basicamente, sua mente é uma máquina de 150 mil anos que se desdobrou para acompanhar os últimos 150. Ela é do tempo dos índios pirarrãs, exemplo de pré-história em pleno século 21. Os pirarrãs, que vivem no Amazonas, não têm palavras para descrever passado e futuro, só o que aconteceu hoje. A refeição, a dança e o sono começam quando a natureza pedir. É assim que viviam os primeiros grupos humanos.

Enquanto nossos antepassados só se ocupavam de sobreviver, não havia muito estímulo para planos e memórias. Mas o domínio do ambiente permitiu que se chegasse aos sofisticados conceitos de "ontem" e "amanhã". Os primeiros astrônomos aprenderam a medir as fases da Lua e a passagem dos anos. Relógios de sol mediam as divisões do dia, e relógios de água, ancestrais daqueles de shopping, a passagem da noite. Outras coisas que fluíam ou se consumiam, como areia, velas e incensos, também eram usados, mas "amanhecer", "sol a pino" e "anoitecer" ainda eram horários mais confiáveis.

Só na Idade Média surgiram os primeiros relógios mecânicos. Mas não tinham ponteiros nem números: mais do que mostrar, eles "soavam" o tempo, tocando um sino na hora de rezar. Em 1656, um matemático holandês criou o primeiro relógio de pêndulo, que na virada do século, com o avanço tecnológico, já marcava até minutos com precisão. Agora era possível provar que alguém estava atrasado 15 minutos - ao menos dentro nos limites municipais.

Sim, cada cidade tinha seu horário, calibrado pelo meio-dia local. Foi o trem, um meio de transporte com hora para sair e chegar, que forçou a padronização. Levou um tempo, claro. Alguns relógios ingleses de meados do século 19 possuíam dois ponteiros de minutos: o do "horário local" e o "da ferrovia" - na verdade, o do meridiano de Greenwich, que se tornaria a hora oficial em 1880, abrindo caminho para a adoção dos fusos horários.

Logo o "horário da ferrovia" era a hora certa. Para que o mundo todo se movesse como uma locomotiva, escola, trabalho, lazer e descanso ganharam hora para acontecer. Como reparou o historiador Helmut Kahlert, o relógio, antes tão útil quanto um chafariz, foi se aproximando dos seres humanos: da torre da igreja para a sala da casa, passando pelo bolso até chegar ao pulso - mesmo no celular, ele continua bem próximo.

Em menos de um século, a Revolução Industrial transformou em planilha um mundo que ainda tinha muito de pirarrã. Não é à toa que nosso cérebro às vezes tem dificuldade de acompanhar o ritmo. Mas esse processo não chegou de maneira uniforme a todas as sociedades modernas - inclusive a uma sociedadeque você conhece bem.



Rápido x devagar

Ao chegar ao Brasil, em 1976, as primeiras palavras que o americano Robert Levine aprendeu não foram clássicos como "samba" ou "caipirinha", mas "calma" e "amanhã". Na Universidade Federal de Niterói, nenhum de seus alunos de psicologia social parecia se importar com horários e datas. Com o tempo, ele se rendeu aos atrasados, até porque o exemplo vinha de cima: entre seus colegas, não havia compromisso capaz de abreviar um bom almoço. Após um ano de "desorientação, frustração, fascínio e obsessão" com o país em que ônibus paravam para o motorista passar na padaria, Levine decidiu que ia estudar os diferentes passos do mundo.

Em uma de suas pesquisas, o professor mediu os mesmos 3 índices em dezenas de países: velocidade de pedestres, duração de atendimento em bancos e a hora certa dos relógios. Para supresa de ninguém, o 1º lugar ficou com a Suíça, seguida de Alemanha e Japão. Já o Brasil só escapou da lanterna graças à Indonésia e ao México. "Não se trata simplesmente de povos lerdos e povos apressados", esclarece Levine. A raiz da diferença é que, enquanto algumas sociedades já estão totalmente no "tempo do relógio" trazido pela Revolução Industrial, outras ainda curtem resquícios do "tempo do evento".

No tempo do relógio, é ele quem comanda o início e o fim das atividades. No tempo do evento, as atividades começam e terminam quando, por consenso, os envolvidos consideram que é a hora certa. Isso é muito claro em partes da África onde vale o "tempo africano" - basicamente, uma falta absoluta de senso de urgência. Não que todo mundo leve na boa: em 2007, a Costa do Marfim chegou a fazer uma campanha chamada "O Tempo Africano Está Matando a África - Vamos Lutar contra Ele".

Comparando cidades, Levine concluiu que a rapidez parece ser fruto do capitalismo: quanto maior a economia local, sua diversificação, a densidade populacional e a cultura individualista, mais rápido é o ritmo da vida. E uma cidade acelerada atrai gente acelerada e expulsa os lerdos, criando um ciclo de aumento da velocidade nas metrópoles. No Brasil, por exemplo, já é comum que paulistanos considerem o ritmo de outras regiões (especialmente os serviços) muito lentos.

Claro que isso traz problemas: regiões apressadas apresentam um índice maior de obesidade, estresse e doenças do coração. Por outro lado, o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi descobriu que os mais deprimidos são justamente aqueles que não têm pressão temporal nenhuma. Pelas pesquisas do professor Levine, as pessoas que andam mais rápido se dizem mais satisfeitas com a vida de uma maneira geral e ganham mais dinheiro.

Vale lembrar que aquele levantamento em que o Brasil ficou em antepenúltimo foi feito no início dos anos 90. "Soube que houve muito progresso econômico nos últimos 20 anos. Portanto, se minhas teorias estão certas, o ritmo de vida acelerou e vocês já devem ter subido algumas posições", afirma Levine.

Mesmo que apressemos o passo, vamos continuar sofrendo de um mal que aflige de banqueiros suíços a tribos africanas: todo mundo deixa pra depois. Quando se trata de gerenciar o próprio tempo, lerdos e apressados sofrem com a procrastinação.


Agora x depois

Procrastinar é não fazer aquilo que você deveria estar fazendo - mas sem curtir essa folga. Procrastinar é diferente de matar aula para ir ao cinema: ainda que envolva evitar tarefas não prazerosas, não dá prazer. Ao contrário, é uma atividade angustiante. É esse contorcionismo mental que chama a atenção dos especialistas: você precisa muito fazer isto, mas alguma coisa dentro de você acaba desviando a sua atenção para qualquer outra coisa. A internet, claro, deixou tudo mais complicado.

Um editorial do American Journal of Psychiatry comparou: "Decepcionar-se por não conseguir realizar uma tarefa longa conectado é como fornecer doses de ópio para operários no meio do expediente e se surpreender quando isso se torna um problema".

Para David Meyer, neurologista da Universidade de Michigan, é um problema de saúde: se os viciados em internet pudessem ver sua mente, teriam surpresas desagradáveis, como fumantes que veem seus pulmões. Para o economista Herbert Simon, trata-se de um problema de alocação de recursos. Informação consome nossa atenção. Logo uma riqueza de informação causa escassez de atenção. Cabe a nós resistir ao instinto de ficar atento à distração.

Outro impulso a ser combatido é a gratificação imediata. Há um experimento clássico em que uma pessoa é solicitada a escolher se quer R$ 100 agora ou R$ 110 amanhã; a maioria quer R$ 100 agora. Em outro momento, a oferta é R$ 100 daqui a 30 dias ou R$ 110 daqui a 31 dias; aí, a maioria espera. Na essência, as duas ofertas são idênticas - você espera um dia a mais e ganha R$ 10 pela paciência. Na prática, fazemos escolhas melhores quando pensamos no futuro, mas não quando o dilema está na nossa cara. É por isso que a lista de filmes que você quer ver antes de morrer é repleta de clássicos, mas você sempre acaba assistindo à reprise de Se Beber, Não Case ou Mamma Mia. Da mesma forma, você planeja uma tarde de trabalho e, quando vê, a tela do computador tem trocentas abas abertas e nelas há de tudo, menos trabalho.

Contra esse tipo de atraso, psicólogos, filósofos e até economistas paternalistas têm se rendido ao que eles chamam de "vontade estendida" - ferramentas externas que ajudam a nossa parte que quer trabalhar. Um estudo do M.I.T. mostra que esse controle não precisa vir necessariamente de cima para baixo. Confrontados com as opções de entregar todos os trabalhos no fim do semestre ou acertar datas de entrega diferentes, a maioria preferiu a segunda alternativa. Moral da história: em vez de se expor à vagabundagem involuntária, eles preferiram um controle externo para fazer o que racionalmente queriam - estudar.

Outro exemplo de vontade estendida são os programas de computador que protegem você da sua própria procrastinação. Com nomes sugestivos como Freedom ("Liberdade") e Isolator ("Isolador"), eles podem bloquear o Facebook ou mesmo cortar todo o acesso à internet por horas. Para roubar no limite autoimposto, é preciso desligar o computador - uma barreira que, dizem, garante o foco da maioria. A máquina baleada é mais útil do que 100% operacional.

Ou seja, é preciso observar seus hábitos e admitir seus desejos e falhas para conseguir fazer o que quer na hora em que quer. Sem esse exame, listas e agendas são tão úteis quanto figas e trevos-de-quatro-folhas. Mas, antes de encerrar o assunto, é bom ficar atento para o fato de que atrasar as coisas pode não ser culpa sua, mas das coisas. Vale parar pra pensar se você está procrastinando porque, lá no fundo, não vê sentido naquela tarefa. Se for o caso, é melhor deixar pra depois mesmo. Antes, você precisa conhecer um negócio que se chama "perspectiva temporal".


Curtir x planejar

Quando você relembra o passado, é com nostalgia ou remorso? Quando encara o presente, é com prazer ou desgosto? E o futuro, traz medo ou esperança? A maneira como você responde essas perguntas se reflete nos seus pensamentos, sentimentos e comportamentos - ou seja, em tudo que você faz.

Essa atitude que cada um tem em relação ao tempo é chamada de perspectiva temporal. Quem criou o conceito foi Philip Zimbardo, papa da ciência do comportamento desde que, em 1971, sacudiu Stanford com um experimento em que alunos comuns passaram a se comportar como guardas e prisioneiros. Para Zimbardo, apesar de geralmente inconsciente, a perspectiva temporal é de suma importância: "Por meio dela, nossas experiências são agrupadas em categorias que dão ordem, coerência e significado a nossa vida".

Através da aplicação de um teste padronizado ao longo de 20 anos, foi possível ver que nossa perspectiva se divide em 5 orientações: passado negativo, passado positivo, presente fatalista, presente hedonista e a futurista. (Você pode descobrir a sua fazendo o teste no site da SUPER - super.abril.com.br/testes.)

Simplificando bastante, se todos comparecessem a uma reunião de formatura, o passado positivo estaria morrendo de saudade de todos e o passado negativo só citaria memórias ruins da faculdade. O presente hedonista iria beber, comer e dançar bastante, enquanto o fatalista talvez nem viesse. Já o futurista, que se cuida, iria parecer menos velho que os outros e já começar a planejar a reunião seguinte. Claro que ninguém é unidimensional como esses personagens. A sua perspectiva é uma mistura de todas, mas sempre tem uma que predomina sobre as outras, como as características atribuídas a um signo do horóscopo.

O seu passado, por exemplo, é uma questão de atitude: valorizar memórias boas evita que você viva lamentando ou reconhecendo erros. Até porque você pode hackear suas memórias. Em um experimento, a psicóloga Elizabeth Loftus, da Universidade da Califórnia, mostrou seguidas vezes um vídeo de carros batendo para dois grupos. O primeiro, ao ser perguntando como fora a "batidinha", não viu nada de mais. O segundo, inquirido sobre o "acidente", relatou sangue, vidro quebrado, destroços - e nada disso estava no vídeo. Esse é um exemplo de como a memória muda com informações do presente. Com certeza, lembranças arquivadas como "acidentes" podem ser vistas como "batidinhas".

As perspectivas do presente e do futuro são as mais comuns, e as que mais entram em conflito. Situações citadas ao longo do texto, como apego ao tempo natural, ritmo lento de vida e procrastinação, podem todas ser debitadas na conta do presente. No outro extremo, pontualidade, ritmo acelerado e apego ao planejamento são características da orientação para o futuro. Qual das duas você acha que todos querem ter?


Velozes e ciosos

Não dá para negar: o mundo é de quem anda mais rápido e pensa mais longe. Estudar, poupar e planejar são todos pré-requisitos para a entrada na classe média. Com o progresso econômico pessoal e coletivo, o mundo se acelera. A não ser que você seja um pirarrã ou ligado a uma instituição parecida com a que Robert Levine encontrou em Niterói, não adianta tentar voltar o relógio. Fantasias urbanas à parte, seus estudos mostram que a vida lenta é o caminho mais curto para o tédio e a depressão. O jeito é relaxar e abraçar a velocidade. (Se quiser começar agora, o quadro à esquerda tem várias dicas.)

Para começar, não é impossível se concentrar em um mundo online. Como lembra Winifred Gallagher, autora de Rapt ("Focado", sem versão em português), a tecnologia é neutra. "Se você para tudo que está fazendo cada vez que recebe uma mensagem, a culpa não é da máquina, é sua."

Ao mesmo tempo, distração não é um mal em si. Nenhuma atividade criativa vai fazer juz ao nome sem um passeio mental, que permite associações inusitadas. Foco e distração são a sístole e a diástole da mesma consciência. Para quem teme que as crianças de hoje, nativas digitais, nunca aprendam a focar em uma tarefa por tempo suficiente, neurocientistas apostam que elas vão é se concentrar em tarefas simultâneas.

Mas, se o futuro é a orientação ideal, não deve ser a única. É preciso valorizar as tradições, que nos fizeram quem somos. Também cabe um hedonismo: ao lado do acelerador está o freio, pra que o dia tenha duas dúzias de horas e o ano não passe em branco. Falar nisso, o Natal já tá aí - como vai ser o seu?





Foco no passado

Enxergando ontem com olhos de hoje

Muito do que você faz tem a ver com o que já fez. Quando essa tendência é acentuada, não há margem de manobra: você acaba repetindo os mesmos acertos e erros. Quem tem foco positivo no passado reúne parentes e gosta de montar álbuns de família; na variação negativa, fica remoendo o que poderia ter sido. Para o psicólogo social Philip Zimbardo, é uma perspectiva desejável, "mas não pode ser o centro da vida de ninguém, em nenhuma idade".

TEIMOSIA

Em vez de tentar algo novo, como trocar o coador de café por uma cafeteira, preferem manter os velhos hábitos.

NOSTALGIA

Buscam se cercar de símbolos do passado. Podem ser fotos antigas ou até produtos que consumiam na infância.

FIXAÇÃO

Evitam comidas novas, não se expõem a músicas ou filmes não familiares e têm dificuldade em cultivar novas amizades.

SEGURANÇA

Não são de correr riscos, optando pelas soluções que já conhecem. Mesmo que surjam produtos revolucionários, tendem a continuar usando os antigos.


Foco no presente

O que importa é o momento, a vida é pra ser vivida

O foco no presente é o mais comum - e ao qual é mais difícil resistir. Afinal, é nele que o ser humano viveu milhares de anos, quando tudo o que importava era chegar vivo ao fim do dia. O "presentista" é impulsivo e ansioso, sempre se divertindo ou buscando diversão. Na variação hedonista, é a alma da festa. Na fatalista, tende à depressão. Bem utilizada, é uma perspectiva ótima: por que deixar pra amanhã o que se pode curtir hoje?

SEDENTO

Impulsivos, têm mais possibilidade de se complicar com álcool e outras drogas.

SEDENTÁRIO

Pouco adeptos de exercícios, comem mal, sabotam dietas e vão pouco ao médico.

PERDULÁRIO

Gasta no que não deve e o que não tem, valorizando a satisfação do consumo imediato.

PERDIDO

Não é pontual, privilegiando a vida pessoal a compromissos.


Foco no futuro

Planejar, poupar e se conter são as prioridades

"Pode-se creditar o sucesso da civilização ocidental à orientação futura de muitas populações", diz Philip Zimbardo. É a perspectiva que todos querem (ou ao menos sabem que deveriam) ter. Passa a ser um problema quando o olho no amanhã impede que você aproveite o hoje. Correr é importante, mas saber desacelerar é mais importante ainda.

LOGÍSTICA

Compram antes ou estocam aquilo que sabem que vão precisar.

PRECAUÇÃO

Não costumam ter surpresas - e não gostam delas. Fazem tudo para que a coisa siga conforme o plano.

POUPANÇA

Bem-sucedidos profissionalmente, cuidam das finanças e costumam estar preparados para emergências.

CONTROLE

Pesam a gratificação imediata contra os custos futuros, o que se reflete em uma alimentação mais saudável, por exemplo.

PREVENÇÃO

Pensando no futuro, tendem a ter menos vícios, dirigir mais devagar e usar camisinha. Fazem exercícios e marcam exames preventivos.




Corro. Demais!

Dicas para acelerar sem perder o ritmo

Observe

Procure andar mais com quem foca o futuro. Veja como é o mundo deles. É preciso ter um exemplo próximo de alguém que cumpre metas, para acreditar que é possível.

Inverta

Reordene sua caixa de entrada de e-mails para que os mais antigos fiquem no alto da lista. Resolver o passado libera o futuro. Aliás, isso vale para muito mais coisas além de e-mail.

Distraia-se

Não precisa se punir quando estiver com a cabeça em outra coisa: vagabundagem mental é essencial para o processo criativo. Um minuto de distração pode inspirar horas de foco.

Cronometre

Subestimamos o tempo das tarefas, seja por ignorar a duração delas no passado, seja por não prever imprevistos. Descubra o tempo que as coisas duram para se planejar direito.

Evite

Aprenda a dizer "não" - saber o que não fazer é tão importante quanto saber o que fazer. Tempo é precioso: dê um pouco a si mesmo.

Pare

Agende blocos de tempo apenas para pensar nos seus dilemas - um momento sem TV, computador ou telefone, só com você. Se quiser, pode chamar de meditação.

Separe

Multitasking é mito: até computador derrapa pra fazer tarefas simultâneas. Se não for algo simples, como lavar louça e ouvir música, melhor fazer uma de cada vez.

Aliste-se

O ideal é fazer listas que você possa cumprir em um dia - uma semana já é muito tempo. Nunca coloque tarefas vagas: quanto mais específico, melhor.

Cuide-se

Exercício e dieta balanceada não aceleram só o metabolismo - eles aumentam seu foco e sua concentração, permitindo que você complete seu trabalho em menos tempo.


Fontes Do it Tomorrow and Other Secrets of Time Management, Mark Forster; Shed Your Stuff, Change Your Life, Julie Morgenstern; Getting Things Done, David Allen.

Para saber mais

The Thief of Time

Chrisoula Andreou e Mark D. White (org.), Oxford University Press, 2010.

Geography of Time

Philip Zimbardo e John Boyd, Free Press, 2009.

The Time Paradox

Robert Levine, Basic Books, 1998.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Hawking e a evidência de Deus

03/09/2010

Hawking e a evidência de Deus

por Ulisses Capozzoli

http://blogdasciam.blog.uol.com.br/

O novo livro do físico inglês Stephen Hawking (The Grand Design) tem tudo para dar sequência a uma discussão sem sentido e que, por isso mesmo, tende a levar a lugar algum: a idéia de que a criação do Universo dispensa a necessidade de Deus, ou de um deus, qualquer que seja ele.

Devidamente considerada, a idéia da existência ou não de Deus, sempre intrigou os humanos e, fundamentalmente, os dividiu em dois blocos: os que acreditam e os que não acreditam Nele.

Na sociedade de massas em que vivemos neste início do século 21, no entanto, uma discussão como essa é mais aborrecida que propaganda eleitoral, com seu sonolento desfile de lugares-comuns.

Com alguma frequencia as pessoas querem saber se acreditamos em Deus.

Qual o significado de uma pergunta como esta?

O que o interlocutor imagina que seja Deus? Um velhote vestindo bata-branca, de barbas longas, sentado em um trono tendo ao lado seu indefectível cajado?

Essa é uma idéia possível de Deus?

Aparentemente sim, para boa parte das pessoas.

Evidentemente que se trata de uma imagem infantil ou infantilizada, capaz de revelar conteúdos de natureza psicanalítica, mas incapaz de trazer qualquer contribuição a uma discussão que exige, acima de tudo, refinamento intelectual.

E isso tanto para aceitar quanto negar a existência de uma divindade máxima.

Acreditar que cientistas sejam capazes de resolver questões dessa magnitude é, antes de tudo, falta de informação sobre a natureza da ciência.

A ciência existe para, fundamentalmente, diminuir o sofrimento humano. A ciência é capaz de construir um relato inteligível sobre a natureza das coisas, incluindo a origem do Universo e da nossa surpreendente presença nele.

Mas isso não tem qualquer relação com afirmar ou negar, por exemplo, a existência de Deus. Ainda que uma confusão primária neste caso induza a equívocos como dar sequência a uma conversa sem fim e sem finalidade alguma.

Cientistas, de modo geral, conhecem profundamente (até o ponto que se possa considerar profundo) seus campos específicos de pesquisa. Mas costumam ser igualmente ignorante em outros.

Não muitos homens da ciência transcenderam o conhecimento a ponto de articular considerações promissoras numa ponte capaz de conduzir a conexões com um território tão possivelmente surpreende quanto ao de divindades.

Ou o equivalente disso.

Gênios como Erwin Schrödinger (1887-1961), físico austríaco, foi um deles. Seus escritos relacionados à transcendência de um cotidiano restrito, na direção de planos mais refinados de consciência e possibilidades, são, acima de tudo, experiências de profunda satisfação intelectual.

Mas, aqui, as considerações são de natureza incomparável ao que pensa, entre outros, o biólogo inglês Richard Dawkins (no livro, Deus, um Delírio) vítima do que um psicanalista diagnosticaria como “mania de grandeza”.

A batalha a que Dawkins se entregou, no passado recente, não é outra senão a de acuar e destruir o que ele chama de “Deus”.

Assim, entre homens como Schrödinger e Dawkins, para comparar dois cientistas, há uma separação de bilhões de anos luz.

A exploração da pretensa existência de Deus (seja lá o que isso signifique nos mais diferentes contextos considerados) produziu e continua produzindo, torturas, guerras e destruição ceifando vidas de homens, mulheres, velhos e crianças ao longo de milênios de história.

E a descarada exploração da fé por farsantes que deveriam ser processados com base em leis que caracterizam o estelionato, torna tudo isso pior a cada dia.

A TV está repleta de bispos, pastores e outros impostores de todos os credos baseados numa pretensa e razoável concepção de liberdade religiosa.

Mas fundamentalismo científico não é nem um pouco melhor que tudo isso.

O que dá consistência a uma das frases de efeito de G. K. Chesterton (1874-1934), escritor e poeta inglês para quem, “quando deixamos de acreditar em Deus, passamos a acreditar em qualquer besteira”.

Claro que isso não significa tentar provar o que quer que seja.

Esta é apenas uma frase inteligente.

Conteúdo que sempre falta neste tipo de discussão.

domingo, 12 de setembro de 2010

Falhas de medição invalidam tese do aquecimento global, diz cientista

UOL Ciência e Saúde

Um cientista entre os chamados "céticos do aquecimento global" defende que boa parte dos dados que apontam o aumento da temperatura do planeta devem ser ignorados porque milhares de estações de medição espalhadas pelo mundo estão sendo afetadas por condições que distorcem os seus resultados.

O meteorologista Anthony Watts afirma em um novo relatório que "os dados sobre a temperatura global estão seriamente comprometidos porque mais de três quartos das 6 mil estações de medição que existiam no passado não estão mais em funcionamento".

Watts acrescenta que existe uma "grave propensão a remover estações rurais e de altitudes e latitudes mais altas (que tendem a ser mais frias), levando a um exagero ainda maior e mais sério do aquecimento".

O relatório intitulado "Surface Temperature Records: Policy Driven Deception?" (algo como "Os Registros das Temperaturas da Superfície: Mentira com Motivação Política?", em tradução livre) foi publicado de forma independente, e não em revistas científicas - nas quais os artigos de um autor passam pelo crivo da análise de colegas.

Mas outros pesquisadores apoiam a análise de Watts, incluindo o professor de ciências atmosféricas John Christy, da Universidade do Alabama, que já esteve entre os principais autores do IPCC - o painel da ONU sobre mudanças climáticas.

Evidências

Entre as evidências citadas por Watts para defender sua tese está uma foto que mostra como a estação de medição no aeroporto de Fiumicino, em Roma, está posicionada atrás da pista de decolagem, recebendo os gases aquecidos emitidos pelas aeronaves.

Outra estação de medição está instalada dentro de um estacionamento de concreto na cidade de Tucson, no Arizona.

Essas são situações que, segundo o cientista, afetam o uso dos solos e a paisagem urbana ao redor da estação, refletindo muito mais as mudanças nas condições locais do que na tendência global da Terra.

Na América do Sul, o pesquisador afirma que as estações que medem a temperatura nas altas altitudes deixaram de ser consideradas, levando os cientistas a avaliar a mudança climática nos Andes por meio de uma leitura dos dados na costa do Peru e do Chile e da selva amazônica.

Para o pesquisador, estas falhas tornam "inútil" a leitura dessas medições colhidas em solo. Watts sustenta que o monitoramento via satélite é mais exato e deveria ser o único adotado.

Homem e meio ambiente

O debate provocado pelo professor é lenha no fogo da discussão que opõe cientistas para quem o aquecimento global, se existe, é um fenômeno natural - e tem precedentes na história da humanidade - e cientistas para quem o efeito é causado pelo homem e acentuado pelas emissões de gases que causam o efeito estufa.

Nos últimos anos, os cientistas que alertam para as causas humanas por trás do aquecimento conseguiram fazer prevalecer sua visão, sobretudo no Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês) da ONU, que recebeu inclusive um prêmio Nobel da Paz.

Em uma espécie de "contra-ataque dos céticos do aquecimento", o órgão da ONU foi obrigado no início deste ano a admitir que se equivocou em um dado que apontaria para a possibilidade de as geleiras do Himalaia derreterem até 2035.

No fim de semana, o cientista por trás deste equívoco, Phil Jones, disse à BBC que seus dados estavam mal organizados, mas que nunca teve intenção de induzir ninguém ao erro.

Jones, que é diretor da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia, disse estar "100% confiante" de que o planeta está se aquecendo e de que este fenômeno é causado pelo homem.

O cientista afirmou ainda que as disputas entre os pesquisadores - a "mentalidade de trincheiras", como ele se referiu - só prejudicam a discussão objetiva da questão.

Stephen Hawking descarta papel de Deus na criação do Universo


O cientista britânico Stephen Hawking afirma em seu novo livro, ainda inédito, que a física moderna descarta a participação de Deus na origem do Universo e diz que aparentemente o Big Bang foi uma consequência natural das leis da física.

Em The Great Design (“O Grande Projeto”, em tradução livre), que teve trechos publicados nesta quinta-feira pelo jornal britânico The Times, Hawking afirma que “a criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada”.

O cientista cita a descoberta de um planeta orbitando uma estrela que não o Sol, ocorrida em 1992, como algo que faz as condições planetárias terrestres – como a relação entre a massa solar e a distância para o Sol, por exemplo - parecerem provas “muito menos convincentes de que a Terra foi cuidadosamente projetada somente para agradar a nós, seres humanos”.

"Devido à existência de uma lei como a da gravidade, o Universo pode e vai criar a si mesmo do nada”, afirma o físico no livro.

"A criação espontânea é a razão pela qual existe algo em vez de nada, do porquê o Universo existe, do porquê nós existimos”, diz Hawking.

The Great Design foi escrito em parceria com o físico norte-americano Leonard Mlodinow e tem lançamento previsto para o próximo dia 9.

Mudança
Os trechos indicam uma aparente mudança de opinião em relação a uma das obras mais conhecidas de Hawking.

Em seu livro Uma Breve História do Tempo, publicado em 1988, o cientista sugeria que a ideia de uma criação divina seria compatível com uma compreensão científica do Universo.

“Se nós descobrirmos uma teoria completa, será o triunfo definitivo da razão humana – pois então nós deveremos conhecer a mente de Deus”, escreveu então o cientista.

Uma Breve História do Tempo teve mais de 9 milhões de cópias vendidas em todo o mundo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Stephen Hawking: Homem terá que colonizar espaço para sobreviver

LONDRES (AFP) - A raça humana terá que colonizar o espaço nos próximos 200 anos se não quiser desaparecer, advertiu esta segunda-feira o astrofísico britânico Stephen Hawking, em entrevista publicada no site 'Big think'.

Yahoo Notícias - Ciência e Saúde

"Penso que o futuro a longo prazo da raça humana está no espaço. Será difícil evitar uma catástrofe no planeta Terra nos próximos cem anos, sem falar dos próximos mil anos ou dos próximos milhões de anos", declarou o cientista no site na internet que se apresenta como um "fórum mundial que relaciona pessoas e ideias".

"A raça humana não deveria apostar apenas no planeta", acrescentou o cientista.

"Vejo grandes perigos para a raça humana. Em muitas ocasiões no passado, sua sobrevivência foi difícil", afirmou, mencionando em especial a famosa crise dos mísseis, em 1963, em Cuba.

"A frequência de tais ameaças provavelmente aumentará no futuro. Teremos necessidade de prudência e juízo para lidar com elas com sucesso. Sou otimista", disse Hawking.

Segundo ele, "se pudermos evitar uma catástrofe nos próximos dois séculos, nossa espécie se salvará se nos lançamos no espaço".

"Se somos os únicos seres inteligentes da galáxia, temos que garantir nossa sobrevivência", disse o cientista, considerando que o aumento da população mundial e os recursos limitados da Terra ameaçarão cada vez mais a espécie humana.

"Por isso, sou favorável a fazer voos tripulados ao espaço", disse.

Em abril, o cientista havia advertido que se os extraterrestres existissem, os homens deveriam evitar qualquer contato com eles, porque as consequências poderiam ser devastadoras.

Stephen Hawking, de 68 anos, mundialmente conhecido por seus trabalhos sobre o universo e a gravidade, é autor de "Uma Breve História do Tempo", um dos maiores 'best-sellers' da literatura científica.

Sofrendo desde os 22 anos de esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que provoca paralisia, o cientista desloca-se em cadeira de rodas e se comunica através de um computador e um sintetizador de voz.

sábado, 24 de abril de 2010

Físico brasileiro contesta a teoria do Big Bang

da Livraria da Folha


Em relação à origem do Universo, os pesquisadores se dividem basicamente em dois grupos: os que apóiam a teoria do Big Bang e os que sustentam a hipótese do Universo Eterno.


Livro analisa o surgimento de outras teorias sobre a origem do universo





O brasileiro Mário Novello, doutor em física pela Universidade de Genebra e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), que está no rol dos cientistas mais respeitados do mundo, é partidário do segundo grupo.

Polêmico por ter contabilizado os grávitons em 10 120 ("1" seguido por 120 "zeros"), partícula que os físicos não são capazes de comprovar a existência, Novello afirma em seu novo livro que a explicação do Big Bang é equivalente aos mitos religiosos.

Leia também: Físico brasileiro faz maior contagem do Universo

Com lançamento previsto para o dia 30 de abril, "Do Big Bang ao Universo Eterno" apresenta as razões históricas que levam a teoria do Big Bang perder seu caráter hegemônico.

Abaixo, leia um trecho do livro.

***

Em dezembro de 2007, concluí, com meu colaborador Santiago Bergliaffa, a redação de um artigo que uma revista científica me convidara a escrever, e que nos ocupou intensamente aquele ano todo. Tratava-se de analisar de modo crítico as diferentes propostas que os cosmólogos produziram, ao longo do século XX até os nossos dias, envolvendo modelos cosmológicos não singulares, isto é, modelos que se opõem frontalmente ao antigo cenário-padrão chamado big bang.

O resultado dessa análise - em que examinamos mais de 400 trabalhos científicos - foi um artigo longo, de mais de 100 páginas, que ganhou o título de "Bouncing cosmologies". Quando, no final do mesmo ano, enviamos o texto para a prestigiosa revista Physics Report, nos demos conta de que aquele era um momento simbólico do fim do paradigma paralisante do modelo explosivo. Com efeito, era a primeira vez, desde os anos 1970 - data que marca o começo da hegemonia do cenário da grande explosão -, que uma revista científica de tão elevada reputação na comunidade internacional da ciência abria tamanho espaço para examinar a questão crucial da cosmologia, a origem do Universo, fora do contexto simplista do cenário big bang.

Nesse cenário, o momento singular, caracterizado por uma condensação máxima pela qual o Universo passou há uns poucos bilhões de anos, é identificado ao "começo do Universo" e não permite análise ulterior. Em oposição, no cenário não singular, o Universo não tem um "começo" separado de nós por um tempo finito em nosso passado; aquele momento de condensação máxima nada mais é que um momento de passagem de uma fase anterior para a atual fase de expansão.

No modelo cosmológico do Universo eterno, nesses cenários não singulares, dá-se um passo a mais, ao procurar uma explicação racional para a expansão do volume total do Universo. Dito de outro modo, trata-se de retirar o limite que os cientistas se impuseram arbitrariamente, no século XX, rumo à análise do que teria ocorrido antes do momento de máxima condensação, produzindo aquele estado único, especial, a partir do qual o volume total do espaço aumentaria com o passar do tempo cósmico, exibindo uma expansão.

O presente livro, baseado no artigo de 2007 e em uma série de conferências que realizei ao longo de 2007 e 2008, introduz o leitor não especialista à seguinte questão: o Universo teve um começo em um tempo finito, ou ele é eterno?

Neste momento, talvez fosse relevante abrir um pequeno parêntese para um comentário pessoal que me parece bastante significativo e exemplifica muito bem por que se manteve durante tanto tempo a exagerada hegemonia de que desfrutou o cenário big bang.

Quando, há uma década, eu estava passando um período de colaboração com cientistas da Universidade de Lyon, na França, fui convidado pelo Conselho Cultural de Villeurbane - região onde está situada aquela Universidade - a apresentar uma conferência para o grande público sobre os avanços da cosmologia. Ao conversar com alguns professores sobre a palestra, comentei que iria apresentar as duas alternativas que os cientistas haviam elaborado para descrever as origens do Universo: as propostas do big bang e do Universo eterno.

Um professor da Universidade de Lyon fez então um comentário que me espantou enormemente. Embora conhecendo minhas críticas a este modelo, disse que eu deveria falar apenas do big bang, acrescentando que não caberia enfatizar as dificuldades de princípio que ele possui. "Para as pessoas que não são especialistas em cosmologia, e mesmo para cientistas de outras áreas", continuou, "não se devem explicitar dúvidas que os cosmólogos possam ter sobre a evolução do Universo. Segundo ele, isso só contribuiria para reduzir o status dessa ciência, abrindo espaço para o aparecimento de explicações de caráter não científico e até transcendentais." Acrescentou que isso se devia à particularidade da cosmologia e à grandiosidade do objeto de seu estudo, estas centenas de bilhões de galáxias e estrelas que podemos observar no Universo.

Respondi-lhe que aquilo ia contra meu propósito de ensinar, entendendo que esta função tem por principal atributo pôr em dúvida todo conhecimento, incluindo aquele que se pretende isento de críticas. E também que vivíamos uma situação de transição, na qual o antigo modelo big bang perdia seu caráter absolutista e hegemônico - o que efetivamente aconteceu na década seguinte. Ademais, acrescentei, deveríamos ter todo cuidado ao deixar sair dos laboratórios e passar para a sociedade informações que os cientistas estão longe de poder demonstrar com toda certeza. Mais ainda: como essas verdades provisórias alcançam imediatamente as páginas dos jornais cotidianos e das revistas não especializadas, devemos, logo que possível, esclarecer e enfatizar essa condição efêmera, com mais razão ainda quando se trata de questões envolvendo tema tão sensível quanto o "começo de tudo".

Embora o problema da "origem do Universo" não tenha, para os cosmólogos, importância primordial - pois é um dentre vários com que se defrontam na produção de uma explicação racional a respeito dos diversos fenômenos observados no Universo -, para a maioria das pessoas ele apresenta um interesse fantasticamente grande, que vai muito além da simples curiosidade eventual e passageira. A razão para isso tem a mesma origem daquela que impulsionou os povos do passado, ao longo da história de todas as civilizações, a produzir mitos cosmogônicos sobre a criação.

O estudo desses diferentes modos de conceber, nas civilizações antigas, de onde e como surgiu tudo que existe possui uma bibliografia vasta e bastante específica. Quanto à forma científica de organizar e divulgar essa questão, a quase totalidade de textos de fácil acesso se limita à versão da criação explosiva. Isso seria aceitável se ela fosse validada pela observação, sem que houvesse qualquer explicação alternativa. Mas, ao contrário, como veremos, ela é precisamente o modelo que inibe uma história racional completa do Universo.

Nas últimas três décadas, houve uma exagerada exposição e exaltação do big bang. Por outro lado, existe um desconhecimento quase completo a respeito do cenário do Universo eterno. Este livro pretende equilibrar a situação. Em alguns capítulos, acrescentei comentários sobre assuntos abordados no texto. No final do livro, incluí um glossário com o intuito de complementar informações e reunir definições simplificadas de termos técnicos.

Antes de começarmos nossa caminhada, porém, devo fazer um comentário adicional. Nos últimos anos, por diferentes razões, a cosmologia tem estado permanentemente sob os holofotes da mídia, seja na imprensa, na televisão ou mesmo em discos com pactos. É fácil constatar que muitas das informações referentes ao big bang são produzidas sem que se obedeça ao compromisso fundamental que qualquer divulgador da ciência - seja ele cientista ou não - deve cumprir. Como a divulgação científica se destina, na maior parte das vezes, a não especialistas - que não possuem as ferramentas formais para avaliar criticamente o que lhes é apresentado -, toda afirmação que se faz e que não teve ainda sua veracidade confirmada pelos métodos convencionais, absolutos e universais da ciência deve exibir para o ouvinte e/ou o leitor sua condição limitada ou provisória. Caso contrário, como já comentei, esse uso indevido do status elevado que a ciência possui nada mais será que uma "máscara atrás da qual se esconde um poder político que não ousa se declarar como tal"

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"Do Big Bang ao Universo Eterno"
Autor: Mario Novello
Editora: Zahar
Páginas: 132
Quanto: R$ 28,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

sábado, 17 de abril de 2010

Cérebro divide tarefas simultâneas entre suas metades

FOLHAONLINE

RAFAEL GARCIA
da Reportagem Local

Um experimento francês mostrou que, quando uma pessoa executa duas tarefas ao mesmo tempo, o cérebro divide o trabalho: a metade direita cuida de uma delas e, a esquerda, de outra. A descoberta parece banal, mas gerou surpresa: o cérebro não costuma repartir coisas de modo simples.

O trabalho, realizado no Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica, em Paris, foi conduzido pelos neurocientistas Sylvain Charron e Etienne Koechlin, com 32 voluntários.



Todos tiveram seus cérebros monitorados por uma máquina especial de ressonância magnética enquanto realizavam tarefas passadas pelos cientistas.

O teste começava com as pessoas tendo de montar um quebra-cabeça de letras que vinham embaralhadas. Cada vez que obtinham sucesso, eram recompensados com uma pontuação.

Enquanto voluntários se ocupavam do jogo, a ressonância mostrava que uma parte específica de seus cérebros --o córtex medial frontal, na superfície do órgão, junto à testa- estava ativo em suas duas metades, direita e esquerda, ambas focadas na mesma tarefa.

Isso já era esperado, pois essa área é recrutada pelo circuito cerebral que modula a motivação para perseguir objetivos de acordo com a recompensa.

Quando os voluntários passaram a ter de fazer duas tarefas ao mesmo tempo, porém, o perfil de ativação cerebral mudava. No experimento, isso foi demonstrado com as pessoas tendo de resolver dois quebra-cabeças distintos, um deles em letras maiúsculas e outro em letras minúsculas.

A recompensa para cada um era diferente, mas ambos vinham embaralhados nas mesmas palavras, obrigando os voluntários a resolvê-los no mesmo pacote.

Em espera


Nessa situação, a parte direita do córtex medial frontal se encarregava da tarefa que estava sendo resolvida no momento, enquanto a parte esquerda mantinha a outra "em espera". Quando os voluntários passavam à tarefa secundária, ela trocava de lugar no cérebro.

"Esperávamos ver uma repartição de objetivos, mas foi uma surpresa essa divisão ocorrer de modo tão nítido", disse Koechlin à Folha. O resultado é descrito hoje na revista especializada "Science".

Os neurocientistas sabem que os dois hemisférios do cérebro não funcionam paralelamente. É comum ouvir na cultura popular que o lado esquerdo é "racional", enquanto o direito é "intuitivo".

Desequilíbrio


É uma simplificação, mas o desequilíbrio existe. Regiões cerebrais essenciais para o funcionamento da linguagem, como a área de Broca, só existem do lado esquerdo. Não era de esperar, portanto, que em uma tarefa como o jogo de palavras usado o trabalho fosse simplesmente repartido meio a meio.

"Tarefas com letras normalmente envolvem predominantemente o hemisfério esquerdo", conta Koechlin. "Então, é notável termos descoberto que o lobo frontal direito dirige a tarefa em andamento durante a condição de dupla tarefa. Isso mostra que a divisão encontrada provavelmente não está relacionada a material verbal."

Segundo os pesquisadores, a raiz dessa estruturação no cérebro está na própria maneira de raciocinar. O experimento, dizem, sugere uma explicação sobre por que as pessoas gostam de resolver problemas complexos quebrando-os em decisões binárias, quando, em cada etapa, é preciso escolher uma entre duas opções.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Dano na área do cérebro que toma decisões encoraja riscos

Pessoas com problemas na amídala têm mais possibilidade de fazer apostas arriscadas

SCIENTIFIC AMERICAN Brasil

Apostas arriscadas: tema da neuroeconômica

Imagine que você perdeu o emprego. Mas tem algum dinheiro guardado e a chance de duplicá-lo com uma aposta. Mas, se perder a aposta, perde tudo. O que faria?

A maioria das pessoas não arriscaria suas economias, de acordo com Benedetto De Martino, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, autor de um estudo publicado em 8 de fevereiro em Normas da Academia Nacional de Ciências. Pessoas tendem a preferir evitar perdas em vez de tentar ganhar – comportamento conhecido como aversão à perda.

Mas pessoas com danos na amídala – parte do cérebro com forma de uma amêndoa, envolvida com emoções e tomada de decisões – são mais propícias a encarar grandes riscos, mesmo com pequenos potenciais de ganhos, segundo descobriu o estudo de De Martino. Duas mulheres com danos bilaterais na amídala mostraram redução dramática na aversão à perda quando comparadas com um grupo da mesma idade em uma série de apostas experimentais, apesar de entenderem totalmente valores e riscos envolvidos.

De Martino já suspeitava que a amídala era crucial para a aversão à perda, baseado em estudos anteriores com imagens de ressonância magnética funcional (FMRI – Functional Magnetic Resonance Imaging). Mas esses dois casos raros com danos na estrutura em questão permitiram a De Martino testar diretamente sua hipótese. “Nas imagens da ressonância magnética funcional, você nunca sabe se a resposta está refletindo alguma outra coisa. Com a lesão na amídala, você tem uma resposta direta”, diz De Martino.

Enquanto sujeitos equilibrados que ganhassem US$ 20, mas perdessem US$ 15, apresentam menos tendência a apostar do que se ganhassem US$ 50, mas perdessem US$ 10, as duas pacientes com danos na amídala se afetavam muito menos por grandes diferenças entre potenciais de ganhos e perdas. Em alguns casos, elas optam por apostar mesmo quando o potencial de perdas supera o potencial de ganhos.

O conceito de aversão à perda pode ser aplicado a muitas coisas. Considere, por exemplo, alguém avaliando se submeter a uma cirurgia eletiva. Quanto mais sérias as possíveis complicações – não importando a probabilidade – é menos provável que a pessoa aceite fazê-la. Mas De Martino é especialmente interessado em determinar como a aversão à perda se aplica ao dinheiro. “Meu sonho seria formular uma teoria econômica que pudesse capturar as complexidades do comportamento humano, baseada em pessoas reais e cérebros reais em vez de suposições”, explica. O campo de estudos de De Martino é adequadamente nomeada neuroeconômia. “É uma visão mais biológica das ciências sociais”, diz ele. “Muitos teóricos da economia pensam nos humanos como máquinas e esquecem do processo emocional.”

Em trabalho anterior, De Martino mostrou que danos na amídala fazem as pessoas se comportarem mais como essas máquinas teóricas. “É estranho, mas pessoas com dano no sistema emocional são, paradoxalmente, mais racionais ao tomar certos tipos de decisões. Não levam em consideração nenhum processo emocional.”

De forma interessante, a mais velha das duas mulheres não só não manifestou aversão à perda, como estava até com perda de procura. Essa diferença entre as duas mulheres foi espelhada pelas diferenças entre os grupos de mesma idade. “Conforme você fica mais velho, tem menos aversão à perda”, diz De Martino, explicando que mesmo os sujeitos do grupo de controle mais velhos receavam menos a perda. “Sua perspectiva de vida muda, porque você tem menos anos para viver.” Esse efeito poderia ser consequência das reduções no volume da amídala relacionadas ao envelhecimento – conforme a idade, nosso cérebro diminui. De Martino diz que, somados à idade, outros fatores como renda e educação também estão em jogo.

O dano na amídala não pareceu afetar a aversão ao risco – comportamento similar com uma importante diferença. Pessoas com aversão ao risco têm menos probabilidade de arriscar, mesmo quando não há nada a perder.

Considerando que aversão à perda pode soar abstrata para um economista, segundo De Martino isso provavelmente reflete um mecanismo muito antigo no cérebro. “Pense em um animal. Ele precisa obter comida, mas ao mesmo tempo tem de se proteger dos predadores. Seria muito sábio para um animal avaliar ganhos e perdas em uma perspectiva de evolução.” Embora tenha se passado um longo tempo desde que humanos tinham que se preocupar com predadores, o bem-estar financeiro ainda é necessário para sobrevivência no mundo moderno, ainda que de forma mais abstrata. O estudo de De Martino sugere que a amídala – conhecida por estar envolvida em processar o medo – pode nos deixar com medo do risco de perder dinheiro. “Pode ser que a amídala controle um mecanismo biológico muito geral para inibição do comportamento arriscado quando resultados são potencialmente negativos”, sugere De Martino.

domingo, 9 de agosto de 2009

Quando as pessoas queridas parecem impostoras

The New York Times
Por Benedict Carey





Adam Lepek, 19, que sofreu um acidente de moto,
com seus avós Al e Mary Kott em Weedsport





Adam Lepak olhou para sua mãe e disse: "Você é falsa".

Foi numa terça-feira em julho, no fim do dia, e Cindy Lepak percebeu que seu filho de 19 anos estava exausto. Dias longos como esse, com horas de fisioterapia e exercícios de memória - "sofri um acidente de moto, bati a cabeça e tenho problema para lembrar das coisas; eu sofri um acidente de moto" - normalmente levavam-no a fazer esse tipo de acusação.

"O que você quer dizer com 'falsa', Adam?", ela perguntou.

Ele levantou a cabeça. "Você não é minha mãe de verdade", disse ele.
Sua voz mudou. "Sinto pena de você, Cindy Lepak. Você vive nesse mundo. Você não vive no mundo real."

Os médicos sabem há aproximadamente cem anos que um pequeno número de pacientes psiquiátricos se tornam profundamente desconfiados de seus relacionamentos mais íntimos, normalmente se isolando daqueles que os amam e cuidam deles. Eles podem insistir que o cônjuge é um impostor; que seus filhos são sósias; que uma enfermeira, um amigo íntimo, e até a família inteira são falsos, uma versão duplicada.

Delusões desse tipo normalmente são sintomas de esquizofrenia. Mas na última década, os pesquisadores documentaram delusões parecidas em centenas de pessoas que não são esquizofrênicas, mas têm problemas neurológicos que incluem demência, cirurgia cerebral ou golpes traumáticos na cabeça.

Um pequeno grupo de pesquisadores do cérebro está agora investigando as síndromes de falta de identificação, como são chamadas as delusões, em busca de pistas para um dos problemas mais confusos da ciência do cérebro: a identidade. Como e onde o cérebro mantém o "eu"?

O que os pesquisadores estão descobrindo é que não há um único "ponto da identidade" no cérebro. Em vez disso, o cérebro usa diferentes regiões neurais, trabalhando juntas, para sustentar e atualizar as identidades de si mesmo e dos outros. Aprender o que forma a identidade, dizem os pesquisadores, ajudará os médicos a compreenderem como algumas pessoas preservam suas identidades diante da demência progressiva, e outros, lutando contra lesões como a de Adam, às vezes conseguem reconstruir essa identidade.

"Quando escrevi meu primeiro caso como esse, em 1987, ninguém estava muito interessado; era uma curiosidade", disse o dr. Todd E. Feinberg, neurologista e psiquiatra da faculdade de medicina Albert Einstein e centro médico Beth Israel, que acabou de publicar um livro sobre o assunto: "From Axons to Identity" ["Dos Axônios à Identidade"]. (Os axônios são fibras nervosas.)

"Agora há uma explosão de interesse por esses casos", disse Feinberg, "por causa de sua relação com o eu, com a neurobiologia da identidade - com o que significa ser humano".

Quem é?

"Quem é essa pessoa, Adam?", perguntou um fisioterapeuta chamado Mike numa manhã recente, sustentando o corpo magro do jovem em frente a um espelho de corpo inteiro, com uma enfermeira ajudando a segurá-lo do outro lado. "Quem você vê lá?"

"Mike".

"Certo", disse Pat Taisey, a enfermeira, que passa a maior parte dos dias com ele em casa quando os Lepak estão no trabalho. "Mas quem mais você vê no espelho, Adam?"

"Você. Pat."

"Sim, mas quem mais?", disse ela.

Um sorriso incerto surgiu no rosto de Adam.

Há dois anos não era uma pergunta difícil de responder. Ele estava no primeiro ano na faculdade, tinha uma namorada e um grupo fiel de amigos. Um vegetariano, um louco por esportes, um mestre do sarcasmo, do tipo mais excêntrico. Ele era baterista da banda Sacred Pledge, de orientação "straight edge" (estilo de vida que proíbe as drogas, o álcool e o sexo promíscuo), que estava começando a fazer sucesso na cena hardcore da região de Syracuse.

Depois de seu último ano de colegial em Weedsport, ele partiu numa van com sua banda e viajou por todo o país, tocando em clubes e festas, dormindo no chão, procurando comida no lixo e dormindo na praia na Califórnia.

"Fiquei tão feliz que o deixamos ir", disse Cindy Lepak. "Ele decidiu que aquela vida não era para ele." Matriculou-se na faculdade comunitária Cayuga, na cidade de Auburn.

Ele estava atrasado para a aula numa manhã de outubro de 2007, voando numa leve subida da estrada Weedsport Sennett com a moto Honda Interceptor da família, quando viu - tarde demais - que um carro em sua faixa havia parado para fazer um retorno. Ele desviou do carro; Adam estava de capacete, mas perdeu o controle da moto e rolou com força sobre o asfalto. Ele passou a maior parte dos seis meses seguintes num estado quase vegetativo, mudo e praticamente imóvel.

O diagnóstico foi dano axonal difuso. "A definição do livro significa basicamente um golpe que desliga o monte de fios responsáveis por nos manter conscientes", disse o dr. Jonathan Fellus, neurologista do instituto Kessler para Reabilitação em West Orange, Nova Jersey, que supervisionou a recuperação gradual de Adam. "É como se as principais rodovias tivessem sido atingidas e agora o cérebro tem que usar estradas menores para funcionar. Mas cada cérebro responde de um jeito diferente. Eu desisti de fazer previsões."

Os pesquisadores que capturaram imagens do cérebro enquanto ele processa informação relacionada à identidade pessoal perceberam que várias áreas ficam particularmente ativas. As chamadas estruturas corticais da linha média se parecem com o núcleo de uma maçã, saindo dos lobos frontais próximos à testa e indo até o centro do cérebro.

Essas áreas frontais e da linha média se comunicam com regiões do cérebro que processam a memória e a emoção, no lobo médio-temporal, localizados em profundidade, abaixo de cada uma das orelhas. E os estudos sugerem fortemente que durante as delusões da identidade, esses centros de emoção ou não estão bem conectados às áreas da linha média frontal, ou não fornecem informações de forma adequada. A mamãe se parece e soa exatamente como a mamãe, mas a sensação de sua presença é perdida. Ela parece de certa forma irreal.

A delusão de identificação clássica é chamada síndrome de Capgras, que foi batizada a partir do psiquiatra francês dr. Jean Marie Joseph Capgras, que junto com o dr. Jean Reboul-Lachaux descreveu em 1923 o caso de uma paciente de 53 anos "que transformou todas as pessoas ao seu redor, mesmo as mais íntimas, como seu marido e sua filha, em vários e inúmeros dublês".

Numa análise desses casos publicada em janeiro na revista "Neurology", o dr. Orrin Devinsky, neurologista da Universidade de Nova York, documentou que as pessoas com delusão normalmente têm mais danos no hemisfério direito do que no esquerdo. O pensamento linear e a linguagem tendem a ser funções predominantes no hemisfério esquerdo, enquanto os julgamentos holísticos - de entonação ou ênfase, por exemplo - tendem a ser processadas mais do lado direito. Devinsky argumenta que quando as pessoas não sentem um brilho emocional familiar na companhia de um parente ou uma pessoa querida, o hemisfério esquerdo, sem a inspeção do hemisfério direito, danificado, resolve o conflito com sua lógica categórica. A pessoa deve ser uma impostora.

"E se você tem outros danos nas áreas corticais que checam a realidade, que fazem os julgamentos sobre o que é certo ou errado, então você não têm como corrigir esse erro", disse Devinsky.

Nos melhores dias, como na manhã da fisioterapia, os centros emocionais de Adam parecem se religar aos circuitos que funcionam em seu cérebro. Depois de alguns momentos observando sua imagem no espelho, seu sorriso mudou de incerto para malicioso e respondeu à pergunta dos terapeutas.

"Eu?", disse ele.

Irmão, amigo e filho

Depois do acidente, o irmão mais novo de Adam, Nick, ajudou o máximo que pode, e uma das formas de fazer isso, segundo os especialistas, é simplesmente agir como irmão. Nick fez o seu melhor.

"Eu o deitei no chão da cozinha outro dia, e segurei um cubo de gelo sobre sua cabeça e deixei pingar sobre sua testa; um tipo de tortura chinesa com água", disse Nick. "Ele ficou maluco, ficou muito irritado. Mas depois teve um ótimo dia".

Ninguém sabe quais tratamentos ou exercícios podem levar um cérebro danificado a preservar ou reconstruir a identidade coerente - a asfaltar as estradas neurais periféricas. Mas os neurocientistas geralmente concordam que isso pode acontecer. O cérebro é "maleável", sugerem as pesquisas recentes; áreas intactas podem recrutar tecido cerebral saudável das proximidades para contornar os danos e compensar pela perda de função.

Isso não parece acontecer, entretanto, sem esforço; para redirecionar o tráfego para outras vias, o cérebro precisa do tráfego, dizem os cientistas. Ele precisa estar ativo, resolver problemas, enfrentar expectativas sociais.

Para pessoas que estão se recuperando de sérios danos cerebrais, vários experimentos sugerem que a esperança está exatamente com aquilo que foi perdido, ou seja, o contato com um ambiente social familiar.

Em um dos estudos de imagens cerebrais de 2005, os neurocientistas de Nova York descobriram que o som da voz de uma pessoa querida ativava circuitos amplamente distribuídos em dois pacientes com danos severos que só de vez em quando conseguiam responder a comandos. No ano passado, uma equipe de neurocientistas espanhóis reproduziu a mesma descoberta.

Nos estudos de demência, os pesquisadores descobriram que algumas pessoas que permanecem lúcidas até uma idade muito avançada têm cérebros que pareciam tomados pelo mal de Alzheimer. Muitos deles continuavam sociáveis até o fim, participando de jogos de cartas ou conversas com amigos, coisas que exigiam seu esforço mental.

Durante seus primeiros seis meses na Kessler em Nova Jersey, enquanto estava deitado e mudo, Adam ouviu muitas vozes familiares. Sua mãe esteve ao seu lado todos os dias; seu pai viajava quatro horas desde Nova York todo fim de semana. Sua namorada, Sarah Huey, fazia visitas junto com a mãe a cada quinze dias. Seus amigos o visitavam em grupos.

Logo ele começou a mover seu polegar em resposta a perguntas e comandos - um sinal certeiro de que ele havia entrado num estado de consciência mínimo, uma transição necessária para recobrar a total consciência. "Foi muito difícil no começo", disse seu pai, Mike Lepak.

"Você simplesmente espera que possa de alguma forma dar uma partida em seu cérebro."

Em casa ele experimentou outro tipo de familiaridade e começou a andar, sem muito equilíbrio, e falar, até então em breves sentenças.

Sua mãe ficou responsável por grande parte do trabalho difícil de cuidar dele em casa: treinos de memória, perguntas constantes, a contratação de uma enfermeira durante o dia, além de discutir com o plano de saúde. Os Lepak conseguiram tratá-lo com uma combinação de seguro privado e ajuda estadual e federal. O pai construiu uma extensão na casa para tornar mais fácil a movimentação de Adam; ele ainda passa a maior parte do tempo numa cadeira de rodas.

Ainda assim, o máximo possível, as pessoas em sua vida começaram a tratá-lo como Adam. "Acho que essa é a minha oportunidade de descontar tudo o que ele fez comigo", disse Nick. "Ele é meu irmão."

Os amigos o visitam com frequência e o levam para almoçar, para fazê-lo rir.

Sentados à mesa da sala de jantar numa tarde recente, oito deles contaram histórias sobre a época anterior ao acidente. O centro da atenção pareceu carrancudo a princípio. Ele reagiu depois de ouvir algumas histórias familiares. A história sobre como eles roubavam sacos de doces estragados de uma cafeteria próxima e os atiravam contra os táxis. A vez que ele fez com que um amigo caísse da cadeira com um explosivo bem posicionado. As risadas aumentavam a cada história. Adam mostrou um sorriso, e então, depois de um tempo, o grupo ficou quieto.

"Você tem uma história, Adam?", disse um dos amigos, Sean Steinbacher.

"Isso, conta", disse outro, Shane DiRisio. Ele não estava brincando.

"O que há de errado com você, Adam? Você não tem uma história?"

Ele não tinha. Ele tinha um comentário. Ele os olhou com carinho.

"Esses caras", disse ele com um sorriso, "não prestam".

Começando de novo

Feinberg, do Albert Einstein, vê as delusões de identificação como defesas psicológicas primitivas, como resultado de danos aos lobos frontais direitos que a maioria desses pacientes têm. Essas defesas incluem a negação de que a doença existe, a projeção do problema nos outros ou a fantasia de que a vida diária é de certa forma irreal.

"Essas são as defesas de uma criança de 3 a 8 anos", disse Feinberg. "Mas é importante compreender que essas defesas são uma adaptação positiva. O cérebro está lutando para sobreviver".

A capacidade de inibir essas defesas, de compreender que nem todos as têm, é uma prova de que as áreas frontais do cérebro estão voltando aos trilhos, disse ele.
Nas últimas semanas, Adam tem mostrado cada vez menos delusões. Uma viagem de uma hora de carro em julho para um rancho em Groton, Nova York, que oferece passeios da cavalo para pessoas com deficiências, a mente de Adam estava agitada. "Mãe", chamou ele repetidamente. "O que aconteceu comigo?"

"Você me diz, Adam", disse sua mãe em determinado momento. "Você acabou de me dizer há um minuto. Você sabe o que aconteceu. Você sabe."

"Eu não quero dizer a você", disse ele.

"Por que não?"

"Porque você acha que sou louco", disse ele.

"Não, não acho. Diga."

"Não", disse Adam Lepak, e olhou pela janela por um momento, parecendo perdido em pensamentos.

"Mãe?", disse ele, ainda olhando pela janela.

"Sim, Adam."

"Acho que eu sofri um acidente de moto".

Tradução: Eloise De Vylder

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Henry Gustav Molaison - O homem sem lembranças

Um acidente, que transformou a memória de um americano comum em um grande vazio, deu origem a conhecimentos científicos fundamentais nos últimos 50 anos

Revista Mente Cérebro

por Luciana Christante
farmacêutica e jornalista científica

A história de um dos mais célebres pacientes das neurociências é marcada por uma grande ironia. Uma tragédia particular, que transformou a memória de um homem saudável em um campo vazio, acabou dando origem a conhecimentos engendrados pela ciência nos últimos 50 anos. As informações explicam boa parte do que se sabe atualmente sobre como o cérebro destila o fluxo do tempo para converter presente em passado. O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto escreveu que “é preciso cultivar o deserto como um pomar às avessas”. Foi o que aconteceu com o americano Henry Gustav Molaison, mais conhecido como H.M. – o adágio poético que se concretizou em realidade científica.

Em 1933, o caminho do pequeno Henry, então com 7 anos, foi atravessado violentamente por uma bicicleta, em Hartford, capital do estado americano de Connecticut. Depois da queda e da forte batida da cabeça que o deixou inconsciente por cerca de cinco minutos, o menino pareceu recuperado e seguiu a vida normalmente. Convulsões leves começaram a aparecer três anos depois, mas ninguém as associou ao acidente, já que três de seus primos paternos de primeiro grau sofriam de epilepsia. A primeira convulsão intensa ocorreu no dia em que o rapaz completava 16 anos. Daí para frente as crises só pioraram em gravidade e frequência. Aos 27 anos, eram cerca de dez por semana, obrigando-o a deixar o emprego numa fábrica de automóveis. Medicamento algum surtia efeito, mesmo em altas doses.

CAMINHO SEM VOLTA

Se a cirurgia a que foi submetido em 1953 de fato acabou com o tormento das convulsões, em compensação, aniquilou a capacidade de H.M. de gravar novas memórias, o que foi transformando as remanescentes, ao longo das décadas seguintes, num conjunto cada vez menor de lembranças remotas e desbotadas. “Agora mesmo, eu me pergunto, será que disse ou fiz alguma coisa errada? Veja você, nesse momento tudo parece claro para mim, mas e o que acabou de acontecer? Isso me preocupa. É como acordar de um sonho. Eu simplesmente não lembro”, disse Molaison certa vez.

William Scoville, então diretor do Departamento de Neurocirurgia do Hospital de Hartford, aceitou o desafio de operar H.M., e em 1o de setembro de 1953 fez a ressecção bilateral do lobo medial temporal, um procedimento experimental em grande parte com base nos trabalhos do americano Wilder Penfield, pioneiro em neurocirurgia e que na época fazia uma brilhante carreira na Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. Eram as psicoses, e não a epilepsia, a especialidade de Scoville; mesmo assim não havia nas redondezas neurocirurgião mais habilitado que ele para o caso único e gravíssimo, que justificava medidas radicais.

A extensão exata da ressecção operada no cérebro de Molaison só foi conhecida em 1997, quando uma ressonância magnética (durante muitos anos postergada por não haver certeza de que os grampos aplicados nas meninges não trariam riscos ao paciente caso se deslocassem dentro do equipamento) revelou que ela era menor do que a descrita por Scoville, em 1953. Ainda assim, a lesão não foi pequena, estendendo-se por 5 cm desde a extremidade anterior do lobo temporal, cobrindo dois terços do hipocampo, além do giro para-hipocampal, úncus e amígdala. Naquela época ninguém podia prever consequências tão adversas. A memória era concebida como uma função cognitiva amplamente distribuída pelo córtex cerebral, inseparável das funções sensoriais e intelectuais. Ao saber que Penfield apresentara dois casos semelhantes aos de H.M. (porém com lesões unilaterais do lobo temporal medial) na reunião da Associação Americana de Neurologia daquele mesmo ano, Scoville não teve dúvidas e pediu auxílio ao colega do Canadá.

Indicada por Penfi eld para realizar testes em H.M., a psicóloga britânica Brenda Milner, então com 37 anos, atravessou de trem os 420 quilômetros que separam Montreal de Hartford, trajeto que faria incontáveis vezes nos 30 anos seguintes. Formada em Cambridge, Reino Unido, ela trabalhava com o mestre no Instituto Neurológico de Montreal desde 1950 e havia concluído seu doutorado, em 1952, com Donald Hebb, outro gigante das neurociências, pioneiro da neuropsicologia. De volta à Universidade McGill, Milner descreveu H.M. como alguém que “esquece eventos diários tão rápido como eles ocorrem, aparentemente na ausência de qualquer perda intelectual geral ou distúrbio perceptivo. Ele subestima sua idade, pede desculpas por esquecer o nome das pessoas. É como se tivesse acordado de um sonho. Cada dia é único em si mesmo”.

Suas observações, bem como os resultados dos primeiros testes neuropsicológicos, foram publicadas em 1957 num artigo antológico, em co-autoria com Scoville, que é um dos mais citados das neurociências (cerca de 2.500 citações). Houve, no entanto, resistência entre os colegas cientistas, que logo evoluiu para ceticismo quando lesões semelhantes feitas em macacos não surtiram a mesma resposta. Os animais conseguiam aprender tarefas para as quais H.M. se mostrava incapaz. Só anos depois se descobriu que, em primatas não humanos, certas tarefas de discriminação visual como as que foram usadas dependem de circuitos neurais localizados não no lobo temporal, mas em outra região conhecida como gânglios da base.

Com o passar dos anos, diferentes testes neuropsicológicos, muitos deles engenhosamente elaborados por Brenda, foram permitindo destrinchar a memória em suas diversas facetas, graças ao fato de as funções intelectuais e sensoriais de Molaison estarem intactas. Ele conseguia, por exemplo, memorizar uma sequência de três números por até 15 minutos, por meio de um treino que organizava os dígitos segundo um esquema mnemônico. No entanto, quando sua atenção era desviada para outro foco, a informação era imediatamente perdida. Resultados como esses foram fundamentais para consolidar a distinção entre memória de curto e longo prazo, que já havia sido imaginada por William James no fim do século XIX, mas até então não havia sido claramente demonstrada. Entretanto, a descoberta mais surpreendente proporcionada por H.M. está relacionada à distinção entre o que hoje chamamos de memória explícita e implícita, também conhecida como declarativa e procedural, respectivamente. O “momento eureka” veio depois que Brenda pediu ao paciente para copiar o desenho de uma estrela, numa condição em que ele só podia ver a figura e a própria mão por meio de espelhos. Depois de dez sessões de treinamento, seu desempenho melhorou nitidamente e se manteve ao longo de três dias, ainda que para ele a tarefa fosse sempre inédita. Essa foi a primeira demonstração de que há um tipo de memória, particularmente associada a tarefas motoras (como dirigir um carro ou uma bicicleta), que não depende de processamento consciente e reside em alguma outra região cerebral que não o lobo temporal medial.

RESTOS DO PASSADO

As lembranças preservadas de H.M. também forneceram pistas importantes sobre localização cerebral. Sua amnésia anterógrada era parcial, cobrindo apenas os três anos anteriores à cirurgia (realizada quando ele tinha 27 anos). Assim, sua capacidade de reconhecer a face de pessoas que ficaram famosas até o fim dos anos 40 era tão boa ou melhor que a de voluntários saudáveis e não se modificou ao longo do tempo. A evidência sugeria que o lobo temporal medial não era o destino final do conhecimento previamente adquirido, o que se comprovou posteriormente. Mas a resposta foi diferente no caso das memórias autobiográficas, definidas como eventos únicos no tempo e no espaço. Em Molaison, a evocação deste tipo de lembrança foi mudando com o avançar da idade, tornando-se menos vívida e mais abstrata. Daí surgiu a hipótese, mais tarde confirmada, de que memórias associadas a coordenadas específicas no tempo e no espaço dependem do sistema temporal medial para persistir.

Os primeiros relatos sugerindo envolvimento do lobo temporal medial na memória datam do fim do século XIX, mas o assunto ficou esquecido por décadas, sendo retomado apenas nos anos 50 por Penfield. Antes de H.M. ele já sugeria, com base na observação de outros pacientes amnésicos, que o hipocampo teria uma participação fundamental na formação de lembranças. Mas, por essa época, havia também outras hipóteses para a função da estrutura cuja anatomia lembra um cavalo-marinho (em grego, hippos kampos). A principal era a de que ela estava associada ao olfato, porque aí desembocavam fibras vindas diretamente do bulbo olfatório, o que mais tarde se revelou um equívoco neuroanatômico.

A lesão de H.M. não se restringia ao hipocampo, mas o fato de ser bilateral, diferentemente da maioria dos pacientes estudados antes e depois dele, o tornou um excelente modelo experimental e detonou uma avalanche de pesquisas com modelos animais. Embora não trabalhe sozinho, o hipocampo hoje é considerado a estrutura chave dos mecanismos que, ao fim e ao cabo, definem nossa identidade. Espécie de “gravador” que converte memórias de curto prazo em memórias de longo prazo, suas facetas moleculares são cada vez mais conhecidas, a ponto de já começar a ser possível “apagar” lembranças em animais de experimentação. Como disse o neurocientista Eric Kandel, Prêmio Nobel de Medicina em 2000, ao jornal The New York Times, o caso de H.M. e o trabalho de Brenda “permanecem como um dos maiores marcos da história da neurociência moderna, proporcionando a base do conhecimento para tudo o que veio depois: o estudo da memória humana e seus distúrbios”.

PARA NÃO ESQUECER

Nada disso teria sido possível se Molaison não fosse um homem doce, bem-humorado e estivesse sempre disposto a participar dos testes – durante 50 anos ele se apresentou a Brenda e a outros colaboradores como se fosse o primeiríssimo encontro. “O que ele aprendeu sobre mim ajudou outras pessoas e eu fico contente com isso”, disse uma vez, perguntado sobre o que pensava sobre o cirurgião que o operou em Hartford.

Henry Gustav Molaison morreu em 2 de dezembro de 2008, aos 82 anos, numa instituição geriátrica onde passou os últimos anos de vida, comprometidos pela artrite. Sua história, da qual ele próprio nunca teve noção, está sendo escrita pela pesquisadora Suzanne Corkin, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussetts), que foi aluna de Brenda Milner (hoje com 91 anos) e assumiu os estudos sobre H.M. nos anos 90. Depois da morte, o cérebro dele foi escaneado por ressonância magnética e preservado para novas pesquisas. É bem provável que gere mais conhecimentos que o de Albert Einstein, o último que despertou tanto interesse, mas acabou frustrando as expectativas de quem esperava ver revelada a anatomia da genialidade.

Talvez em poucos anos possamos encontrar H.M. na tela do cinema, pois os direitos autorais do futuro livro de Corkin já foram comprados pela Columbia Pictures. Quando isso acontecer, sua história e seu legado, já reconhecidos no meio científico, poderão ficar eternizados também na memória do grande público.

1926 – NASCE EM 26 DE FEVEREIRO EM HARTFORD, CONNECTICUT.

1933 – É ATROPELADO POR UMA BICICLETA. NA QUEDA, BATE FORTEMENTE A CABEÇA CONTRA O CHÃO, MAS SE RECUPERA SEM APARENTES CONSEQUÊNCIAS.

1936 – SURGEM AS PRIMEIRAS CONVULSÕES LEVES, QUE SE INTENSIFICAM EM GRAVIDADE E FREQUÊNCIA NOS ANOS SEGUINTES.

1953 – SOFRENDO DE CONVULSÕES VIOLENTAS E DIÁRIAS, É OPERADO PELO NEUROCIRURGIÃO WILLIAM SCOVILLE, EM HARTFORD. NO MESMO ANO, BRENDA MILNER DÁ INÍCIO AO ESTUDO QUE REVOLUCIONOU AS PESQUISAS SOBRE MEMÓRIA.

1997 – É REALIZADA A PRIMEIRA RESSONÂNCIA MAGNÉTICA DO SEU CÉREBRO, QUE MOSTRA A REAL EXTENSÃO DA LESÃO CAUSADA PELA CIRURGIA, MENOR QUE A DESCRITA ORIGINALMENTE.

2008 – MORRE EM 2 DE DEZEMBRO EM HARTFORD, AOS 82 ANOS.